Exposição de Pedro David com imagens feitas no interior de Minas

“O que está nas fotos é o meu sertão”, avisa o fotógrafo Pedro David. As imagens criadas por ele evitam identificações muito localizadas, tematizam questões universais e buscam mais expressão pessoal do que registro documental. Essa proposta está no livro ‘Rota raiz’ e na exposição ‘Impressão em processo’, que será aberta quarta-feira no Espaço Experimental de Arte, em Belo Horizonte.

As imagens de ‘Rota raiz’ foram feitas durante as andanças de Pedro pelo Norte e Nordeste de Minas Gerais, entre 2002 e 2008.  O artista explica que elas traduzem sua imersão em um universo interiorano que faz parte de sua infância e adolescência. Helena David, mãe de Pedro, veio do sertão do Bahia para Belo Horizonte. Nas férias, levava o filho para a fazenda do irmão, no interior baiano.

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O designer Alceu Castelo Branco, pai do fotógrafo, participou de projeto no Norte de Minas Gerais dedicado a buscar soluções para problemas de pequenas comunidades. “Ele viajava e voltava maravilhado, trazendo histórias e presentes”, recorda Pedro, citando canivetes, facões, chocalhos de cascavel e bússolas recolhidos por Alceu.

 (Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)

“Sou filho de colecionadores compulsivos de pequenas coisas do interior, dadas como presentes. Isso me levou a viajar, queria ver as fontes das histórias que ouvia”, explica. Alimentado por esse desejo e munido de câmaras, ele percorreu Minas Gerais. “Quando cheguei, vi o interior em mutação, desenvolvendo-se e se transformando rapidamente. Decidi não ficar buscando as histórias antigas dos meus pais, mas fazer o meu sertão. Adorei tudo, mas também observei os problemas, entendendo a importância do desenvolvimento e lamentando perdas”, conta. O fotógrafo confessa: “Fiquei até egoísta. Lamentava a chegada da luz elétrica, mesmo sabendo que ela é importante para as comunidades. São contradições que a gente não resolve”, brinca.

“Minhas fotos mostram o sertão contemporâneo”, resume Pedro David. As imagens trazem o vaqueiro e o couro, mas também meninas com roupa de náilon em poses de modelo. “Ainda tem o pequizeiro na frente da casa, mas os vasos estão enfeitados com flores de plástico. Há muitas ruínas e o eucalipto vai destruindo a vegetação nativa. Essa vivência me permitiu distanciamento do dia a dia, o mergulho num mundo diferente, o que sempre traz novidades. O interior foi o meu campo de pesquisa, depois de muita leitura.”

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Às vezes, Pedro considera ‘Rota raiz’ um diário, pois o livro reúne fotos do momento em que vagava sem objetivo, reunindo elementos e construindo a coleção de imagens que, segundo ele, só agora ganham sentido. “Estava resolvendo a infância e a adolescência, me tornando adulto.”

Por mais que seu objetivo seja a expressão e as fotos traduzam anseios pessoais, elas mostram o Brasil da primeira década dos anos 2000, enfatiza Pedro David. Mas se deter no real não foi a preocupação dele. “A fotografia leva ao real, mas, no meu caso, isso se dá sem querer. O ponto de partida era fazer as imagens que tinha na mente, alimentadas pelas histórias e pelos presentes que ganhei dos meus pais”, explica.

Nas imagens não há a intenção de denúncia, observa o fotógrafo. “O tom, quando não é irônico, é de afeto: há nessas fotos uma nostalgia brasileira, de quem vive de promessas que não se cumprem”, afirma.

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Sobre o autor: Pedro David, de 36 anos, nasceu em Santos Dumont, na Zona da Mata. Formado em jornalismo pela PUC Minas, é pós-graduado em artes plásticas e contemporaneidade pela Escola Guignard da Universidade do Estado de Minas Gerais. A opção pela fotografia se deve ao ambiente familiar. Os pais tinham o hábito de fotografar os filhos, revelar e ampliar as imagens em casa. “Ainda garoto, conheci, encantado, todo o processo fotográfico”, relembra. O fotógrafo lançou os livros Paisagem submersa (2008), em parceria com Pedro Motta e João Castilho, e O jardim (2012). O mineiro ganhou importantes prêmios de fotografia, como o Pierre Verger (2010) e o Porto Seguro (2005). Obras dele integram as coleções Pirelli e Sérgio Carvalho (DF). Em agosto, sua obra vai ganhar exposição no Museu Mineiro, em Belo Horizonte.

Exposição Impressão em Processo
Fotografia. Abertura quarta-feira, às 19h. Espaço Experimental de Arte, Rua Tomé de Souza, 814, Savassi, (31)2516-9678. De segunda a sexta-feira, das 14h às 19h. Até dia 22. Lançamento do livro ‘Rota raiz’. O volume traz 70 fotos, com edição de imagens e textos de Rui Cezar dos Santos. Preço: R$ 80.

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